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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CONTO



DON JUAN DEL CUORE
Ricardo De Benedictis
www.bcidadeemfoco.blogspot.com.br
Baseado na obra do espanhol Tirso de Molina (século XVI), Don Juan foi uma figura humana, criada para expor aos pósteros, a verdadeira força do amor entre homem e mulher. A paixão avassaladora que faz o ser humano dar a própria vida por uma aventura com o ser amado, sem medir perigos e conseqüências. Segundo o autor, Don Juan não era flor que se cheirasse. Cruel,  abusava das mulheres que conquistava, apenas no intuito de saciar seu apetite sexual. Depois a entregava à sua própria sorte. Em obras posteriores, vários autores foram recriando personagens mais humanos e, por conseqüência, românticos. E é neste diapasão que apresento-lhes o nosso Don Juan Del Cuore, nascido aqui na Bahia, mas cuja árvore genealógica vem do velho continente, miscigenado com a figura mais brasileira entre todas, o descendente euro-índio, de origem portuguesa e tupinambá! Há poucos dias, conversando com meu filho primogênito, ele disparou: ‘Pai, nós seríamos descendentes de João e Maria, do romance “Viva o Povo Brasileiro”, do grande baiano João Ubaldo Ribeiro?’

– Neste momento, chego a pensar que sim.

Minha mãe nasceu em Salinas da Margarida e os fatos narrados no romance em tela se deram em Itaparica, a poucos metros da sua terra natal (da minha mãe, se é que me entendem), apesar da temporalidade não ser exatamente a mesma!

Mas vamos falar de Don Juan Del Cuore.

Desde a infância, nosso Don Juan admirava a beleza feminina, com todo o respeito, mas sem tirar os olhos das belas moças e senhoras que lhe passavam à frente. Ainda na primeira infância sonhava aventuras amorosas, sempre com belas mulheres de mais idade, já de corpo adulto. Cabelos, longos, olhos coloridos, altura mediana, vestidas com saias à altura dos joelhos e pequenos decotes frontais. Sonhava, sonhava, sonhava quase que todas as noites. Com namoros intermináveis, passeios a cavalo, sempre a sós e sempre a perseguir o primeiro beijo. E o tempo foi passando com o nosso Don Juan se desenvolvendo até chegar aos 12 anos, quando teve a primeira namorada de verdade. E daí para a frente, por questões alheias, seus namoros não eram tão duradouros. Sempre acontecia algo que separava nosso Don Juan da amada, via de regra, contra a sua vontade!

E o tempo foi passando e o nosso Don Juan foi se especializando, a ponto de conseguir manter mais de um relacionamento na mesma cidade, e vários relacionamentos por onde passava com sua inigualável característica tímida e agressiva, ao mesmo tempo, cantando e tocando seu violão inseparável. E veio o primeiro filho e os casamentos que se sucederam, mas que não deram certo. O nosso Don Juan era um eterno perdedor e sua máxima era ‘substituir para não sucumbir’. Mas tinha outras máximas. tão ou mais importantes. Ele sempre dizia:

-  ‘O coração é meu. O amor é meu e eu o ofereço a quem quiser, quando quiser e enquanto a amada merecer!’ 

Diante de tais argumentos, as mulheres se dobravam e  achavam-no o cara mais incrível de suas vidas. Odiavam-no, amavam-no, e sempre o queriam, até mesmo para acalentar seus sonhos femininos.

Na cama, era razoável. Jamais deixava a fêmea ‘a ver navios’. Sempre esperava a hora certa para encerrar a festa. Entretanto carregava um defeito: não suportava discutir a relação ou falar do ato sexual após o evento. Sempre encerrava o papo.

- Não vamos falar disso. Mudemos de assunto.

Por mais que lhe fosse prazeroso o ato sexual, achava ridículo quando a mulher perguntava se ele gostou ou se esteve bem. Ora, bolas, falar de sexo era o fim da picada e encerrava a questão:

- Sexo é para fazer, não para comentar! – costumava dizer...

Para Don Juan, na juventude só gostava de mulheres mais novas. Com o tempo foi aprendendo que as ‘mulheres de trinta’ eram muito mais carinhosas e faziam sexo com mais desejo e afinco. Mais tarde, quando estava com mais de quarenta anos, nosso personagem já aumentava um pouco a idade da sua eleita. Até os quarenta e cinco, antes dos seios caírem, das rugas aparecerem e das estrias se insinuarem, dava para se relacionar com tais petiscos que eram muito mais atuantes na cama, apesar de mais ciumentas e possessivas no ambiente público, o que muito o irritava, ele que era centro das atenções das demais gurias da paróquia!

- Modéstia à parte, gabava-se Don Juan, para ele mesmo, ‘não tem pra ninguém’!

As namoradas dos amigos davam encima dele e ele as dispensava. Jamais gostou de mulher casada, tinha medo das viúvas...

- Ela matou 1 ou 2 e não quero ser o segundo ou o terceiro. Vade retro!

Os anos foram passando e a idade foi chegando, até que nosso Don Juan, que já tinha sido atacado pelo câncer de pele, desta feita recebeu uma investida mais trágica, acometido de câncer de próstata. O sofrimento pós-cirúrgico haveria de mexer com sua alma; e assim. O nosso herói se viu com uma sonda que o fez sentir-se muito infeliz e sua infelicidade não durou apenas os quinze dias do uso da maldita sonda. Nos três meses posteriores, as sessões diárias de fisioterapia, a incontinência urinária, o uso de fraldas de bebê nos primeiros dias, a evolução do tratamento para o uso de absorventes femininos, tudo isso era o seu calvário. A boa notícia era de que o desgraçado do câncer havia sido dominado. O médico lhe disse que não era cura, mas que ficasse tranqüilo que a doença poderia não voltar. Três anos se passaram, e o pior, a impotência sexual a se instalar, quase como uma ida sem volta. E quando tudo parecia melhorar, eis que o câncer voltou e ele ouviu do médico, como uma sentença, que teria de ir para São Paulo para fazer longo tratamento de radioterapia. Viu-se sem meios financeiros para arcar com tais despesas e chegou a pensar que chegara seu fim. Teve informações que poderia fazer o tratamento na capital, Salvador, e se entregou de corpo e alma para se submeter às 39 sessões de radioterapia que a equipe de oncologia determinara, depois de sucessivas tomografias e exames, que duraram mais de uma semana. Fez as 39 sessões de radioterapia e ao seu término, pode enfim passar o Natal em casa. Após o tratamento, ainda durante a viagem de ônibus, submeteu-se a um verdadeiro suplício, com sangramento intestinal e dores. Teve que viajar de pé, pois não podia sentar-se na poltrona, tal era a dor que sentia. Dias de angústia e de sentimentos dúbios, evitando preocupar a família, até que foi à emergência e passou a medicar-se adequadamente, melhorando os sintomas dolorosos. Tudo isso passou e, vencida esta fase, depois de fazer os testes sanguíneos, chegou a boa notícia de que havia vencido mais uma etapa. O câncer voltara ao status do pós-cirúrgico.

Com isso, nosso Don Juan declara-se aposentado. Sente-se retraído e não quer trazer grandes emoções às mulheres. Assim, mesmo que tenha aparência de boa saúde, seja jovial e aparente alegria, no fundo, no fundo, nosso Don Juan já não é o mesmo. Raramente pega no violão, raramente canta, raramente sente-se inspirado a compor versos de amor. Parece que sua vida vai ficando no passado. Dito isto, parece que o leitor vai entender que a vida passa para todos, inclusive para o nosso personagem que é uma figura de carne e osso, que eu tenho a honra de interpretar. Aqui e alhures, onde meu espírito estiver.

Mesmo agora, depois de tanto correr nesta vida atrás do amor e de tê-lo encontrado várias vezes e várias vezes tê-lo perdido, posso garantir que a vida é bela, que devemos viver para fazer o bem às pessoas que nos amam. E quando o nosso amor não pode mais sobreviver num relacionamento, devemos deixar nossa amada livre para que ela possa seguir seu destino. E nós devemos procurar sempre, enquanto temos o sopro da vida, fazer o bem. Se não podemos ter uma mulher, pelo fato de estarmos incapacitados, paciência. Amemos nossos filhos, nossos netos, nossos irmãos, nossos parentes e amigos, amemos o próximo! Quem sabe, aprendamos a dar sentido ao final das nossas vidas sem estarmos necessariamente infelizes ou depressivos. Este é o conselho que o nosso Don Juan deixa para além das coisas materiais. É bom registrar que nos últimos tempos seu desejo e libido ainda continuam, não com o ímpeto de antes, mas ainda dá para viver alguns momentos de prazer. Seu lema é viver com dignidade, com o amor da família e dos amigos. Cada qual á sua maneira e a seu tempo, é bom concluir que não há nada mais compensador e estimulante, quando chegamos cada vez mais próximos do fim da nossa jornada neste mundo e na bela vida que nos foi reservada e que não deve deixar de ser contada, para que outros possam conhecer tais experiências, mesmo sem necessariamente ter que vivê-las integralmente.

De algo tenho certeza: todos terão que chegar ao final do caminho, mais dia, menos dia. E a máxima que deixo por último nesta crônica da vida real é que: devemos amar a vida, buscando a felicidade. Devemos amar a vida e vivê-la em sua plenitude.

Enfim, o nosso Don Juan Del Cuore repete sempre um termo no qual garante que... A VIDA É BELA!

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