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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

NANDO DA COSTA LIMA CRÔNICA

COSME, DAMIÃO E GUIÓ
Nando da Costa Lima
            O caruru de Cosme e Damião na casa de Dona Maria era tradicional, tinha mais de quarenta anos! Guió cresceu ajudando Dona Maria a preparar o caruru de Cosme.Ela veio morar na casa do “Dotô” ainda nova. O caruru era uma de suas festas preferidas: foi num dia de Cosme e Damião que ela conheceu Juarez, com quem casou e teve filhos e netos. Depois que ele partiu, ela se sentiu tão só que o jeito foi procurar apoio numa igreja. Esta, como sempre, a acolheu muito bem. E Guió se tornou uma irmã fervorosa, tão fervorosa que até o caruru de Cosme e Damião se tornou um ato de desrespeito ao senhor. Quando Dona Maria anunciou que dia 27 de setembro, dia dos santos meninos estava chegando, Guió começou a resmungar: “O pastor nem pode saber disso”. Mas, mesmo contrariada, devido ao respeito pela patroa, ela não teve como deixar de ajudar a mexer o caruru e o vatapá. A cada mexida que dava saía um resmungo. Dona Ilda e Vivi chegaram a avisar: “Guió, Guió, cê num brinca com Cosme”. Mas o pessoal da igreja falou que esse negócio de dar comida pra santo era coisa de candomblé. Até adorar imagem é pecado, imagina dar comida. Pastor Josebaldo tinha razão. Onde já se viu santo de barro comer?.
            No caruru tudo correu bem, as pessoas de costume estavam todas presentes, a mesa da meninada da granja foi servida assim que serviram os donos da festa (Cosme e Damião). Era uma comemoração aberta a todos, tudo correu como manda o ritual. Só Guió que passou a festa toda resmungando, só sossegou quando tudo acabou e ela pode ir embora. Quando chegou em casa só pensava em cair na cama, o dia todo tinha sido muito puxado e no outro dia cedo tinha culto. Mesmo cansada, ainda leu um trecho da bíblia pra aliviar-se da culpa de ter participado da festa, o pastor não podia nem sonhar com aquilo... E foi quando ela adormeceu que as coisas começaram a acontecer... Ela sonhou que estava num casarão enorme, com portas e janelas imensas. No sonho, ela começou a entrar em pânico por não achar a saída. Apareceu uma miniatura de criança, parecia uma boneca. Na hora que ela se aproximou, a menina ficou maior que ela e tentou morde-la. Guió correu pra um dos inúmeros quartos, lá encontrou duas senhoras vestidas de preto que se dispuseram a leva-la até a saída, só que em vez disso a levaram para outro quarto onde tinha dois meninos robustos e um porrete escorado na parede. Um dos meninos ameaçou pegar o porrete, o outro disse que nela a surra tinha que ser de mão.Foi porrada a noite toda, com tudo que é tipo de tapa e pontapé. No outro dia Guió nem pôde ir pra igreja, acordou toda quebrada, dava pra ver os hematomas. Quem via não acreditava.Pra todos que ela contava o sonho e a história do caruru, vinha logo a afirmativa: “Isto foi coisa de Cosme”. Até “cumade” Guilé, que não é muito chegada nessas coisas, achou que tinha sido coisa de Cosme. Só o pastor discordou dessa história de santo dando surra em gente.Achou um absurdo, o cúmulo da heresia. Falou pra Guió que ela deve ter se machucado durante uma crise de sonambulismo, isso acontece muito! Ficou até de explicar melhor no culto no outro dia, mas só ficou... Segundo sua mulher, ele teve um sonho muito esquisito, tão esquisito que ia ter que ficar no mínimo um mês sem aparecer na igreja. Aí Guió, lá do fundo da igreja, lembrou-se do sonho e falou baixinho pra uma irmã de fé que estava ao lado: “Cosme deve ter usado aquele porrete que tava no canto do quarto pra bater no pastor”.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

JEREMIAS MACÁRIO CRÔNICA



O CANTO DA SEREIA NA LUA CHEIA
Mochilas carregadas de trapaças para fazer truques de magias. De quatro em quatro anos eles aparecem assim no período da grande lua cheia da política brasileira, como deuses da salvação para todos os males. Os papos e os discursos não mudam. Os bois nem trocam de pastos, mas, mesmo assim, o povo se encanta com o canto da sereia para depois pagar o pato das mazelas.
  Lobos, ratos, antas, hienas, avestruzes, cobras e outros bichos se juntam num monte de siglas, e cada um faz a sua dança celta feiticeira diante da lua cheia, pedindo proteção para uma boa colheita. Eles levam os frutos e deixam os bagaços e sabugos. Ao contrário do que diz a superstição, nesta época não viram lobisomem, mula sem cabeça nem monstros de assombração da meia noite.
  Por incrível que possa aparecer, com voz mansa e os disfarces de sempre continuam a enganar os incautos, apesar de bater firme que dessa vez não vão mais se iludir. Que nada, basta pintar a lua cheia que todos ficam eufóricos e hipnotizados com suas cores e luzes brilhantes nos céus! Terminada a festa orgística, tudo continua como dantes na casa de Abrantes. Todos dizem as mesmas coisas, mas fazem diferente.
 Todos já devem estar sabendo dessa lua cheia a que me refiro. Ela é dividida em regiões, e cada um disputa o seu lote com unhas e dentes, fazendo suas armações e astúcias demagógicas, para atrair os habitantes que nelas habitam. Uma sempre foi a mais cobiçada e não é mais rica. Trata-se do Nordeste pobre atrasado que apresenta os priores índices de desenvolvimento humano. É um campo propício para suas manobras populistas e assistencialistas.
  Eles são muitos, mas só os mesmos de sempre conseguem abocanhar sua fatia necessária para sair de barriga cheia. Por exemplo, para a Câmara Federal são 5.051 em todo Brasil, para 513 cadeiras. Somente na Bahia, são 417 candidatos a federal que vão disputar a preferência de mais de 10 milhões de eleitores. Da bancada baiana, 32 dos 39 querem a reeleição.
 Para o legislativo estadual, 538 brigam por 63 vagas. Dos atuais, 52 vão usar suas máquinas para manutenção em seus mesmos lugares. Dos 11 restantes, oito figuram na lista para o planalto prateado, ou dourado. Nessa lua cheia, 11.478 correm para assumir ou renovar seus assentos nas câmaras estaduais. É muita gente, mas o pirão de mais quatro anos é bom demais!É recheado de benesses e mordomais, sem contar as gatunagens de muitos, que eles costumam chamar de “por fora”.
Para presidente são 13candidatos, número que nos faz lembrar o azar. Para fechar o filme de terror, bem que a data principal dessa lua cheia poderia cair na sexta-feira 13. Os caras são os mesmos conhecidos. Para não ser, e sendo tão enfadonho e repetitivo, com o mesmo lero-lero.
  O mais irônico de tudo isso é que nesta lua cheia eles vão usar um monte de dinheiro extraído, compulsoriamente, dos bolsos da população dessa terra de famélicos, doentes, violentados, explorados, desempregados e injustiçados. Os bichos ainda acham que é pouco. Cada um pode gastar de um (estadual) a mais de 10 milhões, mas com as trambicagens, vão, além disso.
  São os custos mais caros do planeta, mas isso não quer dizer que somos os mais bem dotados de poder aquisitivo. Muito pelo contrário, meus amigos! O povo daqui é massacrado em todos os setores. É ludibriado, enganado, humilhado e pena em filas de saúde, e muitas outras, para receber um remédio ou um pedaço de pão.
  Aqui são 12 milhões de analfabetos, mais de 50 milhões que vivem em condições de pobreza, 14 milhões em pobreza extrema, 32 milhões de crianças passam necessidades, mais de 13 milhões de desempregados (os números são bem maiores que isso), mais de 60 milhões de homicídios por ano e mais um tanto desses por acidentes de trânsito.
O mais inusitado de tudo isso é que ainda essa gente não fez uma guerra civil. É um povo conformado, que pouco berra e grita. Já realizou alguns movimentos, mas logo caem no esquecimento e, cada um, vai cuidar de seus afazeres individuais. Essa gente daqui não tem indignação e vota por favor ou coisa semelhante. Não se revolta. Não há revolução.
  Aproveitando o tema fiz esse poema, ou modesto verso:
 “NAS CILADAS DA LUA CHEIA”.
Os lobos ficam moucos na lua cheia/Do Planalto prateado do céu colonial/Onde os bandos fazem a farta ceia/Vinda do arado suado do braço serviçal/
As hienas viram renas na lua cheia/Para a engorda gulosa do grande dia/Enchendo seus trenós em cada aldeia/Para mais quatro anos de sodomia.

Os ratos armam ciladas na lua cheia/Como satânicos vendem gato por lebre/A pobreza mental segue o canto da sereia/E quem sempre paga o pato é a plebe.

Depois dessa festa da lua cheia/O feixe da fé começa a minguar/Até a veia da esperança vai-se embora/Chora o velho, a senhora e a criança/Na falta da justiça, do remédio e do pão/E do direito digno de viver e sonhar/De não mais ser boiada de patrão.

No aboio, ou no rasgo da guitarra/Vamos embora, minha gente!/Esse tempo de espera nos devora!/Vamos embora gente forte valente,/Não mais no aguardo do Deus dará!/Vamos acabar de vez com a farra/Dessa bicharada em nosso luar.

BIG BEN - CRÔNICA

Eta, brinquedo porreta!
BIG BEN
Você conhece o Bat-bag? Ele apareceu nos anos 70, tempo dos Embalos de sábado à Noite, dos sucessos apoteóticos dos irmãos Gibb, os Bee Gees, da TV baú, da revistinha de sacanagem, das brincadeiras de rua, da família tradicional, da inocência das paqueras, da generosidade das pessoas, da autoridade dos professores, da vida com um ritmo muito mais lento, porém com muito mais significado, enfim, tempo em que as coisas tinham "gosto de verdade".

Eu me lembro que na minha juventude não havia um ser vivo, que pelo menos uma única vez, não o tenha segurado em suas mãos. No meu tempo, a gente comprava na banca de jornal e já vinha pra casa com aquela coisa fazendo tec-tec-tec. Basta de suspense! Vamos lá, Bat-bag era um brinquedo rústico com aparência de uma arma medieval, que tinha duas bolas maciças de acrílico, conectadas nas extremidades de um fio grosso de nylon, amarrados a uma argolinha. As bolinhas batiam, batendo em cima e embaixo e acabavam fazendo a volta completa.

Com toda certeza, o nostálgico Bat-bag, brinquedo febre dos "anos dourados", tem a “mão de Deus”. Este bibelô, da indústria de “coisas para crianças,” tem provocado, ao mesmo tempo, ódio e paixão, a cada desempenho bem ou mal sucedido. Se todos os brinquedos fossem como esse, o mundo, indiscutivelmente, estaria em melhores condições? Muito bem! Você deve estar pensando? Agora, eu cheguei à conclusão definitiva: Esse cara por detrás desse site literário é mesmo um doido varrido! Posso tentar me defender?

Vocês já repararam na verdadeira lição que esse objeto, nem sempre inofensivo, nos brinda? Se você errar a estratégia de jogo no vídeo-game, o máximo que pode acontecer é você morrer no mundo virtual. Grande coisa! Se você errar no jogo de Perguntas e Respostas, o máximo que pode acontecer é você perder ou deixar de ganhar uma boa quantidade de pontos. Grande coisa! Se você errar nas manobras do skate, nem sempre você vai sofrer as conseqüências por sua performance frustrada. Grande coisa! Se você errar no Bat-bag, a coisa muda um pouco de figura. No ato, o seu erro não vai deixar saudades, ou seja, errou, doeu!

Eu pergunto: Existe brinquedo mais pedagógico do que esse? Já pensou se todos os erros humanos fossem castigados com essa prontidão? Eta, brinquedo porreta! Vamos mudar de brinquedo, enquanto eu ainda tenho mãos...

sábado, 18 de agosto de 2018

JEREMIAS MACÁRIO - CRÔNICA



AS CURIOSIDADES DO MUNDO GREGO

COM SUAS FILOSOFIAS E SABEDORIAS (parte III)
Jeremias Macário 
PÍSISTRATO – A democracia ateniense era dividida em três partidos: o da Planície, conservador, aristocrático e latifundiário; o da Costa, dos ricos comerciantes; e o da Montanha, do proletariado urbano e rural.
Um dia um senhor deste último partido se apresentou ao Areópago (Conselho) e disse ter sido vítima de um ataque dos inimigos do povo. Mostrou seus ferimentos e pediu 50 homens para lhe proteger.
Apesar de velho, chamaram Sólon para dar sua posição. Vendo naquilo uma grande malícia de segundas intenções, e percebendo que não lhe davam ouvidos, desabafou indignado: Sóis sempre os mesmos. Individualmente, cada um de vós age como raposa, mas coletivamente, sóis um bando de patos.
O cara astuto era Pisístrato, também de família aristocrática e primo de Sólon que o conhecia muito bem.Ele sabia que a democracia sempre pende para a esquerda, por isso inventara suas ambições no proletariado. Ao invés de 50, Pisístrato reuniu 400 homens. Apoderou-se da Acrópole e proclamou a ditadura, naturalmente para o bem do povo.
O partido “A Costa” coligou-se com a “Planície”, derrubaram o tirano e obrigaram a fugir, mas logo voltou. Conta Heródoto que um dia se apresentou, às portas da cidade, um carro imponente e nele vinha uma linda mulher, com armas e o escudo de Palas Atena. Quando os batedores anunciaram que a deusa viera restaurar o ditador, o povo se inclinou. Foi ai que Pisístrato apareceu com seus homens. Uma aliança tornou a exilar o ditador.
Três anos depois, em 546, voltou pela terceira vez e restaurou o regime até sua morte. Pouco modificou da Constituição de Sólon e optou por eleições livres, sem culto à personalidade. Submeteu-se ao controle do Senado. Tinha do povo simpatia. Chamavam-no de tirano, mas no sentido de fortaleza. Possuía charme e falava com bons modos e calma. Sua política foi a de produção. Construiu modernas e poderosas embarcações.
O homem de ferro instituiu uma comissão para recolher e ordenar a Ilíada e a Odisseia que Homero deixara esparsas em episódios fragmentários. Evitou a guerra e deu a Atenas a posição de capital moral da Grécia.Criou os jogos pan-helênicos como ponto de encontro. Fugiu das tentações do poder absoluto, mas cedeu seu lugar para os filhos Hípias e Hiparco.
MILCÍADES E ARISTIDES – Pelos anos 490 a.C., seiscentos navios e duzentos mil soldados persas se apresentaram às portas da Grécia para invadi-la. Ao lado da pequena Plateia, apenas Atenas mandou seus poucos soldados se juntarem aos vinte mil homens do exército de Milcíades, que tinha pouca tradição militar.
 No dia da batalha, na planície de Maratona, quem estava no turno era Aristides, que renunciou da missão a favor do colega, por considerar que tinha menos capacidade de atuar. Os soldados persas eram valentes, individualmente, mas não tinham ideias de manobra coletiva. No confronto, Dario perdeu sete mil homens contra pouco menos de duzentos de Milcíades, conforme narram os historiadores. Mandado anunciar a vitória em Atenas, o soldado Fedípoda fez vinte milhas correndo. Depois de dada a notícia, caiu morto, com o pulmão estourado.
 Cheio de medalhas, o general transformou-se em almirante e pediu setenta navios que os levou a Paros. Lá exigiu cem talentos. O governo chamou de volta e obrigou a restituir só a metade. Milcíades não teve tempo porque morreu antes.
   Restou Aristides, homem justo e honesto, tanto que depois da batalha teve a incumbência de guardar as tendas dos vencidos. Dentro delas havia notável riqueza e ele a entregou ao governo. Passou sua juventude combatendo a corrupção política e o peculato dos funcionários.
  Em seu caminho dopou com Temístocles, orador brilhante que lhe fizera intrigas, propondo ostracismo para seu colega Aristides. Conta que na votação, um camponês analfabeto pediu a Aristides que escrevesse na lousa sua aprovação à proposta de Temístocles.“Por que queres mandar Aristides para o exílio? Fez-te algum mal? – perguntou o próprio Aristides. Não me fez nada – respondeu - mas estou farto de ouvi-lo chamar de justo. Aristides sorriu de rancor e marcou contra ele mesmo o voto daquele homem.
 No ato da condenação, disse: Espero atenienses, que não tenham mais ocasião de se recordarem de mim, Atenas estava com os persas novamente às portas, conduzidos por Xerxes, em 485 a.C., com mais de dois milhões de homens e mil e duzentos navios.
 Dessa vez Esparta, com seu rei Leônidas, e seu exército de 300 homens,se juntou a Atenas, Os trezentos sozinhos teriam vencido os dois milhões, se traidores não tivessem guiado os inimigos por uma senda desconhecida, às costas de Leônidas, que caiu com 298 dos seus, depois de ter causado 20 mil mortes. Dos dois, um se suicidou de vergonha, e o outro resgatou a honra caindo em Plateia. Foi escrito em sua lápide: Vai estrangeiro, dize a Esparta que nós caímos em obediência às suas leis.
 Com relação ao ataque a Atenas, conta que um deputado propôs a rendição e foi morto na Assembleia. Sua mulher e seus filhos foram lapidados pelas mulheres. Os persas saquearam uma cidade vazia. Não podendo opor-se aos colegas que queriam a fuga, Temístocles mandou um escravo informar do plano da retirada a ser executado na noite imediata. Se a mensagem fosse descoberta, ele passaria por traidor.
Então, Xerxes rodeou o inimigo para não o deixar fugir. Com sua astúcia, Temístocles consegui obrigar os gregos a lutar, Xerxes em terra assistiu a catástrofe da sua frota com a morte de seus marinheiros por afogamento. Assim, Atenas e a Europa foram salvas, em Salamina, em 480 a.C.
TEMÍSTOCLES E EFIALTES – Após a batalha naval, o almirante mandou outro escravo informar Xerxes de que conseguira dissuadir os colegas da perseguição da frota vencida. O persa deixou na Grécia 300 mil homens aos cuidados de Mardônio. Houve um ano de trégua. Depois começou a luta sob o comando de Pausânias, rei de Esparta, com 100 mil homens. Mardônio perdeu 260 mil e Pausânias 59 mil.
Temístocles continuou a montar suas armações para se dar bem. Organizou uma confederação entre as cidades gregas (Atenas Estado-chefe) e pediu navios a Atenas. Reforçou sua frota e conseguiu cercar a cidade até o Porto de Pireu. Ao mesmo tempo, tomou a iniciativa dos tratados de paz com Xerxes e propôs anistia aos exilados em troca de uma recompensa. Embolsou a grana e deixou-os no exílio.
Diante de suas trapaças, a Assembleia recorreu ao ostracismo. Temístocles retirou-se rico para Argos. Mesmo assim, Esparta o denunciou como traidor. Sabendo disso, o estrategista procurou refúgio na corte de Artaxerxes que lhe deu pensão alta e ouvia seus conselhos e orientações para que a Pérsia retomasse a luta contra Atenas. A morte o alcançou aos 65 anos, em 459 a.C.
Naquela época, Atenas se debatia em meio a intrigas entre dois partidos: O oligarca, de Címon (filho de Milcíades), e o democrático, de Efialtes, pobre incorruptível e idealista. Os dois eram íntegros e tinham caráter, mas Efialtes saiu à frente e resolveu atacar a própria aristocracia. Denunciou na Assembleia as tramoias urdidas por senadores e sacerdotes. Muitos foram condenados à morte e outros ao exílio, só que o denunciante foi assassinado em 461 a.C.
  Com tragédia e tudo, a democracia saiu triunfante com a sucessão de Péricles e início da civilização grega, do Partenão, de Fidas, Sófocles, Eurípedes, Sócrates, Aristóteles e Platão que em dois séculos deram à humanidade o que outros não

conseguiram em milênios.

NANDO DA COSTA LIMA - POESIA

A SOFISTICADA TABAROA DO POETA
Nando da Costa Lima
             Aqui é tão diferente..., é Conquista que escolhe a gente, chega sorrateiramente e toma conta da gente! O amor aqui é latente...
            Quando dei por mim eu estava na Conquista “meio civilizada, meio tabaroa” do poeta Laudionor de Andrade Brasil. Um dos grandes nomes da poesia diferente da terra do frio. Ele olhava pra Conquista e enxergava poesia, ninguém a amou tanto,é um daqueles raros poetas que nos transporta pra dentro da sua poesia. Arapucas, badoques, alçapões, gaiolas, juritis, Simão, Rua Grande, Barracão... Tudo girando na cabeça, coisas que às vezes nem são citadas, mas que estão presentes nos versos dos poetas que voam, eles nos levam aonde querem. É aí que se revela a mágica... Odores, sons, mágoas, alegrias, barracões e brincadeiras. Tudo vida, tudo versos. “Eu te amo demais/ Mais que toda gente! / Quem te fere é a mim que fere/ Quem te maltrata, / É a mim que maltrata / É a mim que atiram o cuspo do desprezo / Os que te desprezam! / E porque te amo assim Conquista / Eu sou profundamente bairrista”.
            Ele nasceu no primeiro ano do século vinte e, como todo grande poeta, estava bem além do seu tempo. Mesmo assim, não deixou de se apaixonar por sua terra, e fez de Conquista sua eterna musa. Quando um poeta transcende, sua poesia nunca é corroída por modismos... O tempo é uma constante ameaça, ele passa como se estivesse desafiando o homem a deixar sua marca, justificar sua existência! E isso é difícil, muito difícil. Pro poeta então... Só os que voam alto conseguem deixar sua marca no lombo do tempo.O poeta Laudionor Brasil foi criado na Rua Grande, brincando pelos arredores de Conquista. Uma infância feliz. Quase toda poesia dele foi voltada ao espaço em que viveu. Versos lindos, inspiradíssimos. Faz bem pra alma saber que pessoas tão maravilhosas viveram aqui na nossa terra, parece até que eles marcaram pra se encontrarem aqui: Íris, Camillo, Laudionor, Erasthótenes. Eles reinaram absolutos e criaram coisas incríveis... Valsaram com a dama do frio. E o tempo revelou uma nova Conquista para novos poetas, que aprenderam com eles a voar alto sem tirar os pés do chão. Pois é, poeta, nossa cidade cresceu. Muita gente se apaixonou pelo seu jeito tabaréu chique de ser... Mas ninguém conseguiu demonstrar aquele “amor paixão” como você fez: “Sou um selvagem que ficou parado, / ante o esplendor da civilização / E tenho na minh’alma lavada / O orgulho dum nativo não domado / O amor às causas simples do sertão”.
            E a cidade, hoje bem diferente da Conquista da sua mocidade, mesmo tendo conservado seu charmoso lado tabaréu, sente o amor que emana dos seus belos versos. Só os magos conseguem isso, seus versos ganham vida própria. “Minha cidade bonita / Conquista meio civilizada / Conquista meio tabaroa/ terra de minha infância alegre e boa / terra da minha adolescência descuidosa / terra da minha tumultuosa mocidade / como me punge a certeza amarga, que eu tenho / que não serás, berço querido / terra da minha velhice inatingível”. O poeta deixou sua sofisticada tabaroa antes de completar 50 anos.
Tentar explicar as partidas e chegadas em versos é um doce devaneio. Coisa de poeta.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

JEREMIAS MACÁRIO - CRÔNICA

AS CURIOSIDADES DO MUNDO GREGO
COM SUAS FILOSOFIAS E SABEDORIAS (parte II)
Jeremias Macário
Como diz o próprio título, registramos as principais curiosidades do mundo grego, extraídas do livro do autor Indro Montanelli, em prosseguimento ao comentário passado. Aproveite a leitura.
TALES – Os fundadores de Mileto eram guerreiros da guerra de Tróia que se perderam no naufrágio, inclusive o Ulisses. Como fugitivos usaram o método de matar todos os homens e casar com as viúvas de sangue orientais, bastantes bonitas.
 Lá pelos idos de mil a.C., Mileto já era a cidade mais rica e evoluída do Mar Egeu. Seu governo começou com reis, passou para a aristocracia e depois a democracia. Ali foi fundada a primeira escola filosófica grega por Tales, nascido em 640, de uma família fenícia. Vivia distraído imerso em seus pensamentos.
Tido como um nada, mas conhecedor de astronomia, o rapaz pediu dinheiro ao pai e comprou todos os lugares de azeite de oliveira da ilha. Era inverno e os preços estavam baixos, mas previra um bom ano para a colheita. Seus cálculos deram certo e, no ano seguinte, como monopolista, pôde impor os preços e ganhar muito dinheiro.
Em sua viagem para o Egito colocou em prática seus conhecimentos de matemática, calculando, pela primeira vez, a altura das pirâmides. Fez a proporção, medindo a sombra sobre a areia no momento em que ele mesmo projetava uma sombra do tamanho do corpo.
Com seus teoremas, bem antes de Euclides, julgou que a terra fosse um disco flutuante sobre interminável extensão de água, personificada no Oceano. Imaginou a vida como alma imortal, cujas partículas se encarnavam numa planta, num animal ou num mineral. As que morriam seriam apenas momentâneas encarnações.
Ele procurava ensinar a maneira correta de raciocinar, mas não se incomodava quando não o compreendiam ou riam dele. Foi incluído na lista dos Sete Sábios, ao lado do legislador Sólon.
  Quando lhe perguntaram qual a coisa mais difícil para um homem, respondeu “conhecer-se a si mesmo”. Sobre Deus: Aquilo que não começa e que não acaba. Sobre o que consiste a justiça para um homem virtuoso, afirmou que não fazer aos outros o que não queremos que nos seja feito.
Deixou como discípulo Anaximandro. Em 546, Ciro anexou a ilha ao império persa e a cultura grega entrou em agonia. Para Tales, as culturas e os impérios são apenas formas passageiras da alma imortal.
HERÁCLITO – Outro centro da cultura grega no sexto século foi Éfeso, com seu templo de Artêmis e seus poetas, com destaque para o esquisito Calino, tanto quanto o Heráclito, o Obscuro, pertencente a uma família nobre.
Como um São Francisco de Assis, deixou toda riqueza, ambições, posições sociais e retirou-se para uma montanha, vivendo o resto da vida como eremita, à procura da ideia que regula todas as coisas, em todas as ocasiões. Sustentava que a humanidade era um animal irremediavelmente hipócrita, estúpido e cruel, ao qual não valia a pena ensinar coisa alguma.
Defendeu o eterno transformismo do gasoso para o líquido, deste para o sólido, e vice-versa. É a única verdadeira realidade da vida. Nada é e tudo se torna. Existe o dia porque existe a noite, na qual se transforma. Vida e morte, bem e mal, são as mesmas coisas. Para ele, o alternar dos opostos (frio e calor, branco e preto, etc) cria a vida e lhe dá significado. Como nos nossos tempos atuais, a vida, dizia ele, é uma eterna luta de oposições entre homens, sexos, classes, nações e ideias.
Deus não existe. Suas estátuas são apenas pedaços de pedra com as quais é inútil entabular conversa. Sacrificar animal é perda de tempo. O verdadeiro sábio vê no mundo uma Razão, isto é, uma Lógica. A luta é a mãe da própria vida. Ela fez do vencedor um patrão, e do vencido um escravo.
SAFO – Como Alceu, mestre na poesia, Safo foi expulsa da ilha de Lesbos por incomodar o ditador Pítaco. Os dois foram companheiros de exílio em Pirra. De família nobre, nascida por volta de 612 a.C., suas ambições  foram mais de caráter feminino. Possuía o que hoje se chama de sex-appeal.
   De volta à sua terra, foi novamente expulsa, e dai se estabeleceu de vez na Sicília onde casou-se com um rico industrial. Ficou viúva e retornou a Lesbos muito rica e no luxo. Criou um colégio só para meninas. Diz-se que já com certa idade, perdeu a cabeça por um marinheiro. Como não teve o amor correspondido, suicidou-se. Num trecho de seus poemas escreveu que, “Irremediavelmente, como a noite estrelada segue o ocaso rosado, a morte segue todo o ser vivo e por fim o alcança”. A Igreja condenou ao fogo sua obra, reunida em nove volumes. Foi uma das maiores poetas do século VI a.C.
LICURGO – Legislador espartano, não se sabe muito bem a data certa de sua existência, entre novecentos a seiscentos a.C. Dizem que trouxe de Creta o modelo de sua famosa Constituição. Para que todos a aceitassem, contou que fora o próprio oráculo de Delfos quem a sugerira em nome dos deuses.
Conta a história que, diante de suas leis severas, numa discussão, o jovem Alcandro atirou uma pedra em seu olho. Para livrar o culpado da fúria dos presentes, Licurgo o chamou para jantar em sua casa onde, entre uma compressa e outra no olho, explicou ao agressor por que tencionava dar leis duras para Esparta. Alcandro tornou-se propagandista de suas ideias.
 Sua máxima era o desprezo da comodidade e do prazer. Obrigou seus concidadãos a manter suas leis em vigor, pelo menos enquanto estivesse em Delfos. Fechou-se num templo onde se deixou morrer de fome. Assim, as leis nunca foram revogadas e se tornaram costume.
 Entre as determinações, os reis deviam formar dupla no trono para que um vigiasse o outro. O Senado era composto de 28 membros, todos de mais de 60 anos. Quando um morria, os candidatos a vaga desfilavam num pátio. O mais aplaudido era eleito. Abaixo do Senado havia a Assembleia, Câmara dos Deputados.
Destacava-se em Esparta a disciplina militar. Nesse regime de regras onde os cidadãos eram súditos, uma junta governativa examinava os recém-nascidos. Os aleijados eram lançados de um pico de Taígeto. Os outros eram obrigados a dormir ao relento. Só os mais robustos sobreviviam.
  O cidadão tinha liberdade para casar com qualquer mulher, mas se não fosse apta à reprodução, o marido pagava multa. Esse mesmo marido era obrigado a tolerar a infidelidade se a adúltera cometia o ato com um homem mais alto e mais forte do que ele. Para Licurgo, o ciúme era ridículo e imoral.
  O espartano vivia militarmente em tendas ou em barracas até aos 30 anos, sem conhecer cama ou outras comodidades de casa. Lavava-se pouco e devia prover a alimentação por si mesmo, roubando, mas sem ser descoberto. Caso contrário, era duramente castigado.
SÓLON – Legislador ateniense. Segundo a tradição, de volta das façanhas do Minotauro, o rei Teseu unificou as aldeias da Ática numa só cidade, Atenas era uma mistura de aqueus e jônicos. Com a morte do rei Codro,os atenienses aboliram a monarquia e proclamaram a república, dando poder a um presidente (arconte) por dez anos. Depois dividiram as atribuições entre nove arcontes, eleitos por um ano.
Na Constituição, dominava uma aristocracia hereditária, a dos eupátridas (bem nascidos). A população era dividida em três grupos: Os que possuíam um cavalo podiam se alistar no exército; os que tinham uma junta de bois formavam as tropas de carroças; os assalariados constituíam a infantaria. Só os dois primeiros eram cidadãos. O sistema feudal restringiu a riqueza nas mãos de poucos. Drácon procurou remediar a situação com mais severidade, mas suas leis não mudavam nada. Todo poder ficava nas mãos do Senado.
Sólon era nobre de sangue real e se dizia descendente do deus Posídon. Era visto como filhinho de papai do tipo playboy mimado. Mesmo assim, se candidatou à eleição para arconte epônimo que redigia o calendário. Viam nele um reformulador social. Depois de eleito, aboliu a escravidão.
Sua grande revolução foi dividir a população de acordo com o recenseamento. Todos os cidadãos eram livres e sujeitos às mesmas leis. O privilégio era medido pelos serviços prestados à coletividade.
Ao contrário de Licurgo, fixou pequena multa contra quem seduzisse a mulher alheia. Negou-se a castigar os celibatários, dizendo: Porque, somando tudo, uma mulher é um bom aborrecimento. Quando lhe perguntaram em que consistia a ordem, respondeu: Em os povos obedecerem aos governantes e os governantes obedecerem as leis. Foi inscrito na lista dos Sete Sábios.