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sábado, 24 de março de 2018

Nando da Costa Lima - Crônica

ESSA ESTÓRIA DE HISTÓRIA COM “H”
Nando da Costa Lima
             Isto faz parte da história. É claro que a gente, além de aumentar um pouquinho, só revela o milagre! É que os fatos e a imaginação se misturam na memória, tem muito tempo que escutei! Foi em 1950, quando Getúlio Vargas, em campanha presidencial, veio parar aqui em Conquista. Os “cumpade” Cabo Thiago, Dória e Alfredinho foram os responsáveis pela segurança da ilustre visita. Tinha gente de tudo que é canto: Guigó, Piripiri, Ibicuí, Iguaí, uma comitiva de poetas de Poções, Lagoa da Pedra, Jequié... Tinha gente até do norte de Minas. O Bicho de Pedra Azul não veio não, é mentira. Ele estava numa passeata em São Paulo. O evento se tratava de um ex-presidente concorrendo novamente à presidência. Uma das imprensas mais tradicionais da Bahia já naquela época, a de Condeúba, veio cobrir o evento, não era qualquer coisa não! A cidade se preparou, tava um brinco. O candidato chegou num dia e se picou no outro, foi o presidente que mais demorou em Conquista. Tinha que sair catando votos e apagando a fama de ditador Brasil afora. Aqui em Conquista o foguetório em sua homenagem foi comentado até em Salvador. O comício foi na Praça Barão do Rio Branco, que faz parte da história política de Conquista. A praça tava lustrando! Parecia uma capital no feriado de 7 de Setembro, só tinha gente arrumada! Mas, como em todo comício, tinha vendedor de tudo o que se pode imaginar: mariola, quebra-queixo, taboca, rolete de cana, doce de umbu, pirulito...”Olha o pirulito enfiado no palito”. E é claro, não podia faltar doido, como a Terra do Frio sempre foi carente de doidos, mandaram buscar dois numa cidade vizinha. Comício sem doido não é comício. Um discursando a favor e o outro contra o presidente. Correu tudo como planejado pelas senhoras da terra, o comício foi impecável e o ex-presidente ficou muito grato com a simpatia e os prováveis votos obtidos no Planalto da Conquista. A Terra do Frio parece que votou fechado com Getúlio Vargas, tem até um busto dele na Serra do Maçal (quanto à votação unânime, eu não tenho certeza. Dr. Rui Medeiros pode informar melhor sobre isso e sobre o caso seguinte).
            Mas o que quase ninguém ficou sabendo aconteceu nos bastidores, numa madrugada duma Conquista gelada, tava tão frio que Getúlio lembrou da terra natal. Naquele tempo fazia frio o tempo todo! Pois bem: o Hotel Albatroz, apesar de ser o mais renomado da região, só tinha quartos, os banheiros eram coletivos. Acho que tinha um ou dois banheiros por andar. E foi por isso que o grande estadista passou um aperto de mais de uma hora na fila do banheiro do Albatroz, atacou uma caganeira daquelas que o suor da testa fica gelado. Foi aquele ensopado de bode com pequi que um cabo eleitoral serviu pra comitiva numa das muitas cidades que Getúlio passou em campanha. Quando o presidente deu vontade de arriar, correu pro corredor onde ficava o banheiro. O homem tava mal...Tava trajando um roupão de seda azul celeste (coisa de rico), mas nem isso comoveu os dois caixeiros viajantes que estavam na frente da fila, eram clientes antigos do hotel! Nenhum dos dois quis ceder o lugar praquele tampinha que estava se contorcendo todo. Eles nem imaginavam que se tratava de Getúlio. Se Seu Viana, o dono do hotel, estivesse acordado, nada disso teria acontecido! Mas não, os viajantes fizeram até piada com o homem. Comentaram sorrindo: “O velho tá doido pra dar uma cagada”, e pra completar falaram que o uso do banheiro era por ordem de tamanho. Estavam bêbados! Getúlio nem sorriu e voltou pro quarto retado, nem uma carteirada quis dar por que não dava tempo! Eu só sei que depois que ele foi embora nunca mais um candidato a presidente pernoitou aqui em Conquista. Deve ter sido o presidente e a comitiva que espalharam pros políticos da época que evitassem comer ensopado de bode com pequi e, principalmente, não pernoitar em Conquista. “Nos hotéis de lá você tem que pegar fila pra ir ao banheiro, é um suplício, trabalhadores do Brasil!”. História é um negócio bonito, a gente fica sabendo de tudo! O pessoal do Hotel Albatroz falou que teve de lavar e enxaguar o roupão presidencial mais de dez vezes em água fervendo pra saírem as manchas. O cheiro ativo do piquí permaneceu por muito tempo, só saiu quando lavaram com lavanda Lancaster. A cueca teve que ser queimada, ficava feio botar uma peça de roupa naquele estado pra lavar. A direção do hotel acertou na decisão, aquela mania besta de gravar as iniciais em tudo que é roupa podia complicar. Mas o roupão não era aquela “lindeza” que teve que ficar em Conquista por motivos óbvios. Era de seda azul celeste e tinha as iniciais de Getúlio bordadas em dourado... Coisa chic! Me parece que essa relíquia hoje faz parte da coleção particular de Pedrinho Morais, que por sinal nunca a expôs em público. Por mim, pode continuar guardado!

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