imagem de capa da página

PESQUISAR NESTE BLOG

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

JEREMIAS MACÁRIO - CRÔNICA

AS CURIOSIDADES DO MUNDO GREGO
COM SUAS FILOSOFIAS E SABEDORIAS (parte II)
Jeremias Macário
Como diz o próprio título, registramos as principais curiosidades do mundo grego, extraídas do livro do autor Indro Montanelli, em prosseguimento ao comentário passado. Aproveite a leitura.
TALES – Os fundadores de Mileto eram guerreiros da guerra de Tróia que se perderam no naufrágio, inclusive o Ulisses. Como fugitivos usaram o método de matar todos os homens e casar com as viúvas de sangue orientais, bastantes bonitas.
 Lá pelos idos de mil a.C., Mileto já era a cidade mais rica e evoluída do Mar Egeu. Seu governo começou com reis, passou para a aristocracia e depois a democracia. Ali foi fundada a primeira escola filosófica grega por Tales, nascido em 640, de uma família fenícia. Vivia distraído imerso em seus pensamentos.
Tido como um nada, mas conhecedor de astronomia, o rapaz pediu dinheiro ao pai e comprou todos os lugares de azeite de oliveira da ilha. Era inverno e os preços estavam baixos, mas previra um bom ano para a colheita. Seus cálculos deram certo e, no ano seguinte, como monopolista, pôde impor os preços e ganhar muito dinheiro.
Em sua viagem para o Egito colocou em prática seus conhecimentos de matemática, calculando, pela primeira vez, a altura das pirâmides. Fez a proporção, medindo a sombra sobre a areia no momento em que ele mesmo projetava uma sombra do tamanho do corpo.
Com seus teoremas, bem antes de Euclides, julgou que a terra fosse um disco flutuante sobre interminável extensão de água, personificada no Oceano. Imaginou a vida como alma imortal, cujas partículas se encarnavam numa planta, num animal ou num mineral. As que morriam seriam apenas momentâneas encarnações.
Ele procurava ensinar a maneira correta de raciocinar, mas não se incomodava quando não o compreendiam ou riam dele. Foi incluído na lista dos Sete Sábios, ao lado do legislador Sólon.
  Quando lhe perguntaram qual a coisa mais difícil para um homem, respondeu “conhecer-se a si mesmo”. Sobre Deus: Aquilo que não começa e que não acaba. Sobre o que consiste a justiça para um homem virtuoso, afirmou que não fazer aos outros o que não queremos que nos seja feito.
Deixou como discípulo Anaximandro. Em 546, Ciro anexou a ilha ao império persa e a cultura grega entrou em agonia. Para Tales, as culturas e os impérios são apenas formas passageiras da alma imortal.
HERÁCLITO – Outro centro da cultura grega no sexto século foi Éfeso, com seu templo de Artêmis e seus poetas, com destaque para o esquisito Calino, tanto quanto o Heráclito, o Obscuro, pertencente a uma família nobre.
Como um São Francisco de Assis, deixou toda riqueza, ambições, posições sociais e retirou-se para uma montanha, vivendo o resto da vida como eremita, à procura da ideia que regula todas as coisas, em todas as ocasiões. Sustentava que a humanidade era um animal irremediavelmente hipócrita, estúpido e cruel, ao qual não valia a pena ensinar coisa alguma.
Defendeu o eterno transformismo do gasoso para o líquido, deste para o sólido, e vice-versa. É a única verdadeira realidade da vida. Nada é e tudo se torna. Existe o dia porque existe a noite, na qual se transforma. Vida e morte, bem e mal, são as mesmas coisas. Para ele, o alternar dos opostos (frio e calor, branco e preto, etc) cria a vida e lhe dá significado. Como nos nossos tempos atuais, a vida, dizia ele, é uma eterna luta de oposições entre homens, sexos, classes, nações e ideias.
Deus não existe. Suas estátuas são apenas pedaços de pedra com as quais é inútil entabular conversa. Sacrificar animal é perda de tempo. O verdadeiro sábio vê no mundo uma Razão, isto é, uma Lógica. A luta é a mãe da própria vida. Ela fez do vencedor um patrão, e do vencido um escravo.
SAFO – Como Alceu, mestre na poesia, Safo foi expulsa da ilha de Lesbos por incomodar o ditador Pítaco. Os dois foram companheiros de exílio em Pirra. De família nobre, nascida por volta de 612 a.C., suas ambições  foram mais de caráter feminino. Possuía o que hoje se chama de sex-appeal.
   De volta à sua terra, foi novamente expulsa, e dai se estabeleceu de vez na Sicília onde casou-se com um rico industrial. Ficou viúva e retornou a Lesbos muito rica e no luxo. Criou um colégio só para meninas. Diz-se que já com certa idade, perdeu a cabeça por um marinheiro. Como não teve o amor correspondido, suicidou-se. Num trecho de seus poemas escreveu que, “Irremediavelmente, como a noite estrelada segue o ocaso rosado, a morte segue todo o ser vivo e por fim o alcança”. A Igreja condenou ao fogo sua obra, reunida em nove volumes. Foi uma das maiores poetas do século VI a.C.
LICURGO – Legislador espartano, não se sabe muito bem a data certa de sua existência, entre novecentos a seiscentos a.C. Dizem que trouxe de Creta o modelo de sua famosa Constituição. Para que todos a aceitassem, contou que fora o próprio oráculo de Delfos quem a sugerira em nome dos deuses.
Conta a história que, diante de suas leis severas, numa discussão, o jovem Alcandro atirou uma pedra em seu olho. Para livrar o culpado da fúria dos presentes, Licurgo o chamou para jantar em sua casa onde, entre uma compressa e outra no olho, explicou ao agressor por que tencionava dar leis duras para Esparta. Alcandro tornou-se propagandista de suas ideias.
 Sua máxima era o desprezo da comodidade e do prazer. Obrigou seus concidadãos a manter suas leis em vigor, pelo menos enquanto estivesse em Delfos. Fechou-se num templo onde se deixou morrer de fome. Assim, as leis nunca foram revogadas e se tornaram costume.
 Entre as determinações, os reis deviam formar dupla no trono para que um vigiasse o outro. O Senado era composto de 28 membros, todos de mais de 60 anos. Quando um morria, os candidatos a vaga desfilavam num pátio. O mais aplaudido era eleito. Abaixo do Senado havia a Assembleia, Câmara dos Deputados.
Destacava-se em Esparta a disciplina militar. Nesse regime de regras onde os cidadãos eram súditos, uma junta governativa examinava os recém-nascidos. Os aleijados eram lançados de um pico de Taígeto. Os outros eram obrigados a dormir ao relento. Só os mais robustos sobreviviam.
  O cidadão tinha liberdade para casar com qualquer mulher, mas se não fosse apta à reprodução, o marido pagava multa. Esse mesmo marido era obrigado a tolerar a infidelidade se a adúltera cometia o ato com um homem mais alto e mais forte do que ele. Para Licurgo, o ciúme era ridículo e imoral.
  O espartano vivia militarmente em tendas ou em barracas até aos 30 anos, sem conhecer cama ou outras comodidades de casa. Lavava-se pouco e devia prover a alimentação por si mesmo, roubando, mas sem ser descoberto. Caso contrário, era duramente castigado.
SÓLON – Legislador ateniense. Segundo a tradição, de volta das façanhas do Minotauro, o rei Teseu unificou as aldeias da Ática numa só cidade, Atenas era uma mistura de aqueus e jônicos. Com a morte do rei Codro,os atenienses aboliram a monarquia e proclamaram a república, dando poder a um presidente (arconte) por dez anos. Depois dividiram as atribuições entre nove arcontes, eleitos por um ano.
Na Constituição, dominava uma aristocracia hereditária, a dos eupátridas (bem nascidos). A população era dividida em três grupos: Os que possuíam um cavalo podiam se alistar no exército; os que tinham uma junta de bois formavam as tropas de carroças; os assalariados constituíam a infantaria. Só os dois primeiros eram cidadãos. O sistema feudal restringiu a riqueza nas mãos de poucos. Drácon procurou remediar a situação com mais severidade, mas suas leis não mudavam nada. Todo poder ficava nas mãos do Senado.
Sólon era nobre de sangue real e se dizia descendente do deus Posídon. Era visto como filhinho de papai do tipo playboy mimado. Mesmo assim, se candidatou à eleição para arconte epônimo que redigia o calendário. Viam nele um reformulador social. Depois de eleito, aboliu a escravidão.
Sua grande revolução foi dividir a população de acordo com o recenseamento. Todos os cidadãos eram livres e sujeitos às mesmas leis. O privilégio era medido pelos serviços prestados à coletividade.
Ao contrário de Licurgo, fixou pequena multa contra quem seduzisse a mulher alheia. Negou-se a castigar os celibatários, dizendo: Porque, somando tudo, uma mulher é um bom aborrecimento. Quando lhe perguntaram em que consistia a ordem, respondeu: Em os povos obedecerem aos governantes e os governantes obedecerem as leis. Foi inscrito na lista dos Sete Sábios.

sábado, 4 de agosto de 2018

NANDO DA COSTA LIMA - CRÔNICA

FALE PRO POETA QUE EU MORRI
Nando da Costa Lima           
 Cremildo Silva do Espírito Santo. Como o grande poeta, fazia questão de frisar que seu nome era um verso alexandrino. Mas do poeta ele só tinha esses pequenos hábitos, gostar de poesia e falar que o nome era um dodecassílabo... Porque a poesia de Cremildo lembrava discurso de político em velório. Dava vontade de sair correndo! A vida do poeta sempre foi cheia de surpresas... Nem ele sabia que tinha o “dom”! Só descobriu depois que conseguiu parar de beber por uma semana e, na depressão da abstinência, pegou o caderno da irmã mais nova, daqueles de doze matérias, e encheu de versos em apenas dois dias de insônia... Mostrou primeiro pra esposa, que não entendeu nada, mas só por ele estar tentando parar com aquela cachaça horrorosa, deu a maior força. Tem mulher que merece virar santa, mas as dos poetas já nascem santas! O ex-biriteiro se animou e correu pra casa do seu padrinho com o manuscrito debaixo do braço. Já chegou dando a notícia: “Parei de beber, vou virar escritor”, e apresentou o manuscrito pro pobre do velho, que caiu na besteira de ler e corrigir alguns erros de concordância. Desse dia em diante ele se tornou o revisor e patrocinador oficial da obra do poeta e afilhado. Depois do terceiro livro, Seu Gerôncio já não aguentava mais. O afilhado parou de beber e endoidou. Tava lançando uma média de 12 livros por ano, era a inspiração encarnada! E era o padrinho quem tinha que revisar e patrocinar todos, ou seja, tinha que ler aquela porra querendo ou não. O casal de idosos já não estava suportando aquela tortura quase que diária. O velho já estava sendo tratado com antidepressivos.
            Numa bela tarde, o poeta chegou na casa do padrinho com o manuscrito do vigésimo volume da série: “Sonetos Atômicos”. Seu Gerôncio, na hora que escutou a voz do afilhado, fechou os olhos e começou a roncar como se estivesse em altos sonos, mesmo estando sentado num tamborete. Cremildo puxou uma cadeira, se sentou e falou pra madrinha que ia esperar o padrinho acordar... Dona Eunice, também já cansada da cara do afilhado, ficou nervosa. Até ele notou! Educadamente, Cremildo perguntou o motivo daquela tremedeira. A velha se retou e abriu o jogo: “O culpado ‘deu’ estar assim é você, com esses livros que ninguém lê. Gerôncio já tá tomando remédio tarja preta por sua causa, e só você não nota. É tanto livro que até a comitiva de poetas de Poções, que sempre defendeu a classe dos escritores, parou de vir pros lançamentos. Quem é que aguenta? Um livro de quase 500 páginas todo mês... Cremildo, Cremildo, toma uma tenência na vida, para de encher o saco dos outros com essas porcarias que ninguém lê... Agora que você tá sem beber, podia até arrumar um emprego pra ocupar o tempo, você não vai precisar pegar peso”.
            O poeta ficou ressentido.Pegou o manuscrito e voltou pra casa. Resolveu reler a obra, estava inseguro. Será que sua poesia era tão enfadonha? No quarto capítulo do primeiro volume ele já pensou em tomar uma, quando começou a ler o quinto volume já estava de volta ao copo! Pra suportar aquela merda, só bebendo. Daí por diante, não parou mais de beber. Os padrinhos deram até uma festa para ele. Ficaram alegres por terem se livrado daquele doido recitando dentro das panelas e rodando o fogão quase todo dia. Sem falar do desodorante vencido! E Cremildo jogou toda a culpa daquela cachaça prosa ruim pra cima dos “ignorantes” que não conseguiram entender seus sonetos... E tome cachaça pra dentro! O dono do buteco falou que ele tinha voltado ao copo com tanta dedicação porque foi reler a própria obra e não entendeu porra nenhuma. Mas é mentira, ele só não entendeu os 13 primeiros volumes.
            Foi depois de muito tempo que um intelectual da noite relacionou um verso dele com o minimalismo. Daí em diante toda aquela chatice, que quase endoida um casal de idosos e botou uma comitiva de poetas pra sumir, tornou-se minimalistamente chic! O homem até recuperou a autoestima e voltou a escrever. Aí lascou! Além de cachaceiro inveterado, poeta! Os padrinhos, na hora que souberam que ele tinha voltado a escrever “com todo o gás”, se mudaram pra São Paulo e nem deixaram o endereço. Viajaram às pressas, o rapaz que ficou tomando conta da casa, já com a placa de “Vende-se”, ainda perguntou pra Seu Gerôncio o que era pra falar pro afilhado quando ele aparecesse. O velho respondeu apressadamente, já entrando no ônibus: “Fale pro poeta que eu morri”.

P.S.  Brinco com os poetas porque faço parte da comitiva.

Nando da Costa Lima