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sábado, 6 de abril de 2019

NANDO DA COSTA LIMA - CONTO

  O milagre das pombas
Nando da Costa Lima
Eu acredito em milagre...
Quando aconteceu faltava um ano pra virada do século, foi na "fome de 99", a estiagem havia torrado o sertão baiano. A miséria era geral, o gado morria por falta de pasto e água, as plantações foram todas queimadas pelo sol. O povo estava em desespero.
Aqui em Conquista a coisa estava feia, só não tava pior graças ao velho Poço Escuro que nunca secou. Os alimentos remetidos pela vizinhança menos sofrida com a estiagem nunca davam pra suprir as necessidades da população ca­rente de tudo. A fome estava presente em todas as casas hu­mildes. Só os ricos faziam três refeições diárias (mais ou me­nos como hoje). A população estava assustada, com mais um mês de seca nem o Governo do Estado podia contornar a situação. Quem morava nos interiores mais afastados da Ca­pital ficava encurralado. Em 1899 as cargas eram transporta­das em lombo de burro, as tropas só estavam viajando à noite para evitar o castigo do sol que arrasava o sertão, e esperar ajuda da Capital era sonho. O Conquistense teve que se virar com o pouco que restava. A estiagem acabou com tudo, nem a mandioca resistiu, isto tirou a alimentação básica da região. Sobreviver tava tão difícil que uma semana de trabalho de um homem era pago com três litros de farinha. As crianças eram quem mais sofriam, a desidratação e a inanição matavam diariamente. Foi nesse tempo de miséria e miseráveis que aconteceu o Milagre das Pombas.
Quem primeiro viu foi Chicão, ele vinha de uma fazenda da redondeza trazendo um frango magro pra vender em Conquista a preço de ouro, sabia que comida tava custando os olhos da cara. Foi no Capão Grande que ele avistou o pri­meiro bando de pombas, eram milhares delas, ficou curioso e entrou caminho adentro tentando descobrir o motivo daquelas aves estarem naquele lugar tão castigado pela seca, pensou até que podia ter uma nascente desconhecida. Só depois de al­gum tempo que ele veio notar a quantidade de ninhos espa­lhados pelos garranchos secos, tinha ovo em tudo que é canto, até no chão! Chicão encheu a algibeira e o chapéu. Aí ele ajoelhou-se, fez o nome do Pai, sabia que aquilo era coisa de Deus, rezou uma Ave-Maria era um presente do Senhor! Disso ele não tinha dúvida.
Quando a notícia se espalhou, toda população quis cer­tificar-se. E no local indicado por Chicão eles encontraram milhares de ovos espalhados pelo pasto seco, o povo enchia os cestos. A fome foi amenizada acentuadamente com a ajuda das aves. Em reconhecimento, o Intendente Municipal José Antônio de Lima Guerra proibiu que as pombas fossem caçadas enquanto permanecessem por aqui, elas salvaram muitas vidas. O povo estava agradecido, e as pombas só partiram quando a chuva voltou a molhar o sertão baiano. Sim, eu acredito em milagre...

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