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sábado, 9 de dezembro de 2017

Jeremias Macário - Crônicas

DOS SUMÉRIOS A BABEL (IV)
A EPOOEIA DE GUILGAMECH (Final)
Jeremias Macário 
 Nas duas últimas tabuinhas da escrita cuneiforme, Utinapistin revela para Guilgamech (Gilgamés) que foi sobrevivente do Dilúvio de que fala a Bíblia,na personagem de Noé. Na décima tabuinha, o rei, todo coberto de peles de animais, se apresenta a Siduri-Sabitu, guardiã da Árvore da Vida, com seu coração cheio de dor. A deusa, então, resolve trancar-se dentro da sua casa para não recebê-lo.
  Gilgamés bate furioso na porta e a senhora pergunta o porquê da sua longa viagem. Adverte que nunca encontrarás a vida que procuras. “Quando os deuses criaram os homens, estabeleceram para eles a morte e guardaram a vida para si”, e aconselha a gozar a vida como ela é, que no fundo é bela. Insiste ainda que retorne para Uruk onde todos o amam.
  O rei não se convence do argumento e continua a insistir para que ela mostre o caminho para Utinapistin. “Atravessarei o mar, ou vou caminhando pelo litoral”. Diz a deusa que, a não ser pelo Sol, ninguém pode navegar pelas Águas da Morte. No momento da discussão, aporta o barqueiro de Utinapistin  que tinha vindo buscar ervas e frutas no bosque.
 Então, Siduri-Sabitu manda que ele vá até ao barqueiro para ver se ele consente que o leve pelo mar. Gilgamés corre e grita pelo barqueiro, só que ninguém responde. Com raiva arrebenta várias caixas cheias de pedras que estavam no barco e termina encontrando o homem chamado UrChanabi.
  Dirige-se a ele e pede que o leve até seu patrão, mas o barqueiro responde que ficou impossível porque ele destruiu as caixas de pedras que serviam para ajudar na navegação pelas Águas da Morte. Para contornar o problema, o barqueiro impôs que o rei cortasse cento e vinte troncos e os embarcasse no lugar das pedras.
  Prontamente Gilgamés fez o trabalho na maior rapidez possível e os dois puderam velejar pelas ondas turbulentas até às Águas da Morte. Ur ordena ao passageiro tomar o machado e enfiar os troncos no fundo do mar, mas adverte que ele poderá morrer se as Águas da Morte tocar em suas mãos.
  De longe, Utinapistin a tudo observa e indaga a si mesmo o motivo do desaparecimento das caixas de pedras. Por que agora um estranho, sem a sua permissão, está sem sua barca? Conclui que não pode ser um mortal. Vai, então, ao encontro do rei e se apresenta como aquele que encontrou a vida.
  Gilgamés fica feliz e começa a contar sobre sua dor e o sofrimento durante toda travessia, só para lhe conhecer. Vai direto ao assunto e afirma que quer destruir os espíritos da morte para acabar com o prazer deles. Como obter a vida eterna? - indaga
  Aconselhou que ele deixe de lado os lamentos e a ira, pois a sorte dos deuses é diversa da dos homens. “Mesmo que tua natureza seja dois terços divina, teu pai e tua mãe te criaram homem. Um terço te impele ao Destino dos Homens. A morte põe termo a toda vida. Não são eternas as casas, os pactos e nem as heranças paternas. Os deuses estabelecem os dias da vida, mas não contam os da morte”.
  Vendo Utinapistin, o rei percebe a mesma semelhança como homem, só que ele não tem paz e foi criado para lutar. Então pergunta como seu admirado entrou para a assembleia dos deuses e encontrou a vida. Nisso, Utinapistin resolve contar-lhe toda história, o segredo dos deuses.
  Diz que Churrupak, a cidade antiquíssima, sempre foi bendita pelos deuses, mas depois decidiram fazer descer sobre a terra um dilúvio. No Conselho estava presente Ea (Enqui), deus do Abismo, e ele confiou à minha casa a sentença dos deuses, exortando a abandonar seus bens, salvar a vida e construir uma embarcação capaz de carregar a semente da vida de cada espécie. “Construa rápido o barco e leve-o ao mar de águas doces, carregando tudo que for necessário”.
  Utinapistin narrou como fez a embarcação com ajuda do seu povo. Quando ficou pronta colocou nela tudo que possuía, prata, ouro, sua família, os artesãos e sementes da vida. Logo depois os espíritos das trevas fizeram derramar sobre a terra chuvas torrenciais com tempestades. “Na aurora ergueram-se nuvens negras como corvos. Os espíritos estavam endiabrados e a luz se transformou em trevas densas com fortes ventos”.
  Contou ainda que as águas revoltas alcançaram montes, caiando sobre os homens, e até os deuses tiveram medo do furacão e refugiaram-se sobre a Montanha Celeste de Anu, encolhendo-se como cães assustados. Ichtar em agonia gritava: O belo país se transformou em lama pelo meu mau conselho; como pude sugerir tamanha maldade ao ponto de exterminar minha gente?
No dilúvio, todos os homens tornaram-se lama. Diz Utinapistin que abriu a janela do barco e a luz atingiu seu rosto. Vi aquele grande deserto de água e que todos os homens estavam mortos. Então chorei com lágrimas copiosas. Depois de doze horas duplas vi despontar no horizonte uma ilha e minha nau encalhou sobre o monte Nissir durante seis dias.
  Como na Bíblia de Noé, descreveu para Gilgamés que no sétimo dia soltou uma pomba, mas retornou, não encontrando nenhum lugar para pousar. Então soltou um corvo com águas mais baixas e este não voltou, o que induzi que encontrou terra para se alimentar.
  Diante desse novo cenário, ele deixou que os animais saíssem e sacrificou um cordeiro; espargi grãos sobre o topo do monte e queimei alguns ramos de cedro e mirto. Os deuses se encheram de prazeres e reuniram-se em torno do sacrifício como moscas, reprovando Bel por ter provocado toda aquela devastação.
Na opinião dos deuses, se Bel queria punir os homens que soltasse sobre a terra leões ferozes, monstros e provocasse uma carestia, não destruir toda humanidade. No entanto, Bel não se arrependeu, mas ficou angustiado ao ver a embarcação e indagou: Quem é o mortal que conseguiu escapar ao seu destino? Ninguém deveria sobreviver ao seu juízo.
Enqui, então, se dirige a Utinapistin e sentencia que a partir daquela hora, ele e sua mulher passariam a ser semelhantes aos deuses, com habitação perto do mar onde Gilgamés os encontrou. Depois de narrar a história, ele pergunta a Gilgamés que deus teria piedade de levá-lo para junto dele para encontrar a vida que procura? Em seguida faz um desafio para que ele fiqueseis dias e seis noites sem fechar os olhos.
  Muito cansado de tudo aquilo, Gilgamés adormece profundamente. Ao acordar, Utinapistin o lava, veste, restitui-lhe vigor e manda que Ur o acompanhe. No entanto, com muita pena pelas atribulações que o herói passou, tendo que voltar de mãos vazias, a mulher de Utinapistin lhe oferece uma saída: Existe uma planta milagrosa que cresce no fundo do mar com aspecto de ameixeira. Se conseguir pegá-la e alimentar-se dela encontrarás a vida e a eterna juventude.
  O herói topa enfrentar mais este desafio e amarra duas grandes pedras às pernas até ao fundo do mar. Encontra a planta e emerge tendo na mão a flor maravilhosa do mar, e eufórico grita para Ur, o barqueiro: Eis a planta que dá vida e vou levá-la aos muros de Uruk! Quero que todos comam dela! Quero também comer e reaver toda força da minha juventude!
  Por vinte horas duplas a barca navega até dar numa praia. Num lago próximo, Gilgamés entra para se refrescar, mas eis que ao sentir o perfume da planta, uma serpente penetra sorrateiramente na água e a devora. Mais uma vez, o herói, em pranto, cai em desespero total. Sem opção, volta a Uruk com o barqueiro a quem dá de presente um pedaço de terra.
  Na última tabuinha, já em Uruk, Gilgamés consulta magos para ver o espírito do seu amigo-irmão Enquidu. Ele que interrogá-lo sobre o destino dos mortos. O Sumo Sacerdote o adverte: Se queres ir ao reino dos mortos uses uma veste suja sem banhar-te com óleos perfumados para não atrair os espíritos malignos. Também, não deves pousar na terra o teu arco, para não atormentar aqueles que matastes; não deves levar o cetro, para não repelir os espíritos dos mortos; nem calçar sandálias, para que teus passos sejam silenciosos.
  Como recomendado, o rei dirige-se para o grande deserto onde se abre o umbral do Reino dos Mortos e na porta dos Infernos grita furiosamente. Intimidado, o guardião abre a porta. Cumpre-se, então, o ritual de despojo da indumentária através das sete portas duplas até que o rei se encontra nu diante de Erechquigal, suplicando que deixe ver Enquidu.
  A deusa ordena que ele retorne para o lugar de onde veio, dizendo que não pode ver quem está morto. Tristemente, Gilgamés volta às águas profundas rogando a Enqui que lhe fizesse aparecer a sombra de Enquidu. Enqui vai até Nergal, deus dos mortos, e faz uma abertura no chão e conduz para o alto o espírito de Enquidu para falar com seu irmão.
  Os heróis se reconhecem, mas têm que ficar à distância. Gilgamés pede que seu amigo revele a lei da terra dos mortos. Não posso fazer isso; se te falasse, sentar-te-ias para chorar. Mesmo assim, Gilgamés insiste, e Enquidu conta a terrível verdade. Vê agora! O amigo que te alegrava está devorado por vermes como um farrapo! O amigo que tua mão tocou tornou-se como argila e está cheio de pó. Logo depois, Enquidu desaparece.
  Gilgamés volta a Uruk onde o templo da Montanha Sacra se erguia ao alto. O rei se estende para dormir e a morte o alcançou na esplêndida sala do seu palácio. Assim termina a linda Epopeia de Gilgamés, um espetáculo da literatura mundial.
  Destaca o autor do livro que a introdução do episódio do dilúvio universal na Bíblia é muito tardia e data da segunda metade do século V A.C, mesmo que a tradição hebraica afunda suas raízes num passado remoto. “Nas compilações anteriores do Gênese, o protagonista que tomará o posto de Utinapistin com o nome de Noé, figura somente como o inventor do vinho”.

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