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domingo, 10 de abril de 2022

RICARDO DE BENEDICTIS - CONTO

 

DIDI, O PREFEITO MODELO

 

Diocleciano era um grande amigo, várias vezes eleito prefeito de Boa Nova, no sudoeste da Bahia.

Desde quando meu irmão e seu advogado, Ernesto De Benedictis – conseguiu anular a Convenção do partido que havia apresentado duas chapas, mas o presidente não aceitara o registro da chapa cujo candidato a presidente seria o Didi, Ernesto entrou com uma impugnação na Justiça Eleitoral – que reverteu a situação e mandou registrar a chapa com maior número de votos, justamente a encabeçada por Didi. Houve festa, muita comemoração e Didi acabou vencendo a Convenção e a eleição, tornando-se prefeito. O fato ocorreu na década de 1960. Em vista disso, nossa amizade se estreitou mais e mais. Na sua administração, Didi me convidava para as festas de inauguração de obras, e também para a Festa do Padroeiro, Dia 8 de Setembro.

Numa dessas oportunidades, palanque montado na frente da antiga sede da Prefeitura, Didi pediu que eu escrevesse seu discurso para homenagear a data da Independência. E eu, prontamente o escrevi em duas laudas datilografadas, depois de anotar os nomes das autoridades para compor o palanque oficial e o próprio texto. Entreguei o discurso e fui almoçar. Quando os sinos da Igreja Matriz começaram a soar (essa era a senha para o início da solenidade) fomos para a prefeitura e logo ao chegar, recebi um aceno do Didi que me segredou: (amigo, não sei onde coloquei o discurso. Mandei anotar os nomes para compor o palanque e você vai falar em meu lugar. Alegue que eu estou afônico e pode falar, no máximo por 10 minutos, pois aqui ninguém gosta de discusos longos). Dito isto, entregou-me uma lista e pediu que eu abrisse a solenidade, convidando as autoridades em seu nome. E assim foi feito. Chamei o prefeito ao palanque e disse logo que ele estava com problemas na voz e que pedia desculpas ao povo e às autoridades presentes. Depois de nomear aqueles que comporiam o palanque, passei a palavra para o Instrutor do Tiro de Guerra, depois para um Vereador, uma professora e fiz o discurso final, em nome do prefeito, todos muito aplaudidos e ao som da filarmônica local.

 

No dia seguinte, o prefeito recebeu alguns convidados em sua casa, entre eles, prefeitos da região, deputados e personalidades da sociedade local. Entre os convivas, o prefeito de Jequié, que contava suas façanhas com seu cavalo o “Baião Pagão”. E o dito cujo exagerava muito em seus feitos, a ponto de dizer que havia vencido uma corrida no Paraguay, utilizando a astúcia de “Chavez” personalidade de Xispirito, comediante mexicano. Sua história consistia em ter chegado em primeiro lugar, mas que o vencedor seria aquele cavaleiro que sentasse no trono dedicado ao campeão, para ganhar o prêmio. E ele, quando sentiu que não conseguiria ultrapassar o seu rival paraguayo, subiu na sela do animal e pulou em cima da cadeira que espatifou-se e ele levantou os dois braços do trono, ganhando assim a excelsa peleja! O cara espumava de prazer ao contar aquela ópera bufa, deixando atônitos os demais convidados!!!

Acontece que, no ano anterior, eu o havia visitado no Hospital Espanhol, na Barra – Salvdor, acompanhando um amigo de Poções que morava em Jequié;  era militar do Exército, na reserva, mas que havia servido como chefe da guarda, em Jequié, sob a gestão de Caribé. E lá, encontramos o prefeito sendo tratado num pós-operatório de hemorroida, deitado de bruços e se queixando de dores e que as enfermeiras trocavam sua fralda após os curativos, o que era humilhante para ele. Aproveitando o ensejo, eu perguntei, em tom de pilhéria. – Rapaz, a corrida aconteceu depois da cirurgia de hemorroida ou antes? Não preciso dizer que o homem envermelhou e me olhou com muita raiva, sob as gargalhadas dos demais. Didi sentiu o drama e chamou-me para entregar uns papéis, em outra sala. Trancou a porta à chave e pegou uma compoteira de doce de leite e fomos saborear a maravilha que nós tanto gostamos!

segunda-feira, 4 de abril de 2022

RICARDO DE BENEDICTIS - CONTO

 

CARNAVAL COM CINDERELA

Parte do que vou contar aqui eu presenciei, parte me foi relatado pelo amigo que protagonizou e foi vítima de uma brincadeira de mau gosto em pleno Carnaval, na Praça Castro Alves, em Salvador, no ano de 1973. E lá se vão cinquenta anos!

 

Como ele já me disse várias vezes que não queria seu nome na história, vou respeitar seu pedido. Vou designá-lo de Sabino.

Todos os anos, desde 1969 nós marcávamos encontro com os amigos em frente ao Cine Guarany, hoje Glauber Rocha. Ali existia O CACIQUE, famoso bar noturno que ficava aberto durante o dia no Carnaval para vender cerveja e tira-gostos à sua clientela. Depois disso, nos anos seguintes, passamos a frequentar a barraca de “Juvená”, que era nosso amigo de Brotas e que mantinha uma barraca muito famosa no Farol de Itapuâ. No Carnaval, ele montava seu esquema em frente ao Palácio dos Esportes, vendido recentemente e onde funcionava a ABCD – Associação Bahiana de Cronistas Desportivos, da qual eu era associado.

Voltemos ao caso de Sabino. Ele tinha uma bela namorada carioca de nome Beth e ambos estavam conosco bebericando umas geladas. No grupo estavam vários amigos, entre os quais Ernesto Marques, Horácio Neto, Carlos Uzel, eu e mais alguns amigos. Quando o Sol começou a arder de verdade, já era mais de meio-da, o Sabino e sua namorada sumiram do grupo. Os que ficaram, notaram que algo errado estava acontecendo. Pois ele saiu muito alterdo, empurrando quem aparecesse em sua frente. Sua namorada o acompanhava e tentave minimizar a situação, mas não conseguia. Eles se dirigiram à ladeira de São Bento e foram em frente. A Beth contou depois que o Sabino subiu a ladeira esmurrando quem descia a ladeira e parecia enlouquecido. Já na Av. 7 de Setembro, ele tomou o rumo da rua Paraíso e foram chegar na Av. Joana Angélica, onde havia estacionado o carro. Chegando ao local, o Sabino deitou-se no asfalto e dormiu. Alguns policiais que estavam por perto vieram ver o que acontecia e viram tratar-se de um casal de boa aparência, o carro placa do Rio de Janeiro e a namorada do Sabino explicou que eles haviam bebido umas cervejas e que, de uma hora para outra seu namorado teve um surto de cólera e passou a esmurrar e empurrar quem estivesse à sua frente. Eles perguntaram se ela queria ajuda, que poderiam levá-lo para um pronto-socorro e ela entregou-lhes as chaves do carro, sem notar que o Sabino havia acordado do desmaio.

Daqui em diante, vem o relato do Sabino: - Rapaz, a Beth entregou a chave do meu carro à Polícia e quando acordei, senti o drama. Se desse mole eles me levariam para a Delegacia e adeus Carnaval. Fingi que estva dormindo e fiquei de olho na mão do policial que segurava meu chaveiro. Quando ele se distraiu, dei o bote e tomei as chaves. Com o susto, eles ficaram paralisados e eu abri a porta do carro, mandei a Beth entrar na carona, agradeci aos dois guardas e caí fora. Ao chegar no apartamento onde estávamos hospedados foi que senti que estava com as mãos inchadas, alguns hematomas nos braços e no peito, um arranhão na perna direita e só. Tomei um banho e dormi até a noite, quando havíamos marcado encontrar a turma no Clube Costa Azul.

Mais tarde o Sabino dizia: - Quero saber quem foi o filho da puta que batizou minha cerveja. Se descobrir eu sou capaz de matar. Nenhum dos amigos se acusou ou disse ter visto algo. Ficou o feito por não feito. Nas rodas de papo, quando ele não estava, um ou outro amigo lembrava da história e pensava alto. Temos de nos cuidar. Desta feita foi com o Sabino. Da próxima, ninguém sabe...!

E não soube, mesmo!